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Moto de entrega acima do limite no condomínio: o que os dados mostram e como resolver sem briga

Três cartões com números: 42% das mortes no trânsito em 2024 eram de motociclistas, 405 mil condutores de moto trabalhavam por plataformas em 2025 e o risco de morte do pedestre é quase cinco vezes maior a 50 do que a 30 km/h.

Resposta curta

Motociclistas são a maior fatia das mortes no trânsito brasileiro: 15.459 das 37.150 vítimas fatais de 2024, cerca de 42% (ONSV, com dados do DATASUS). A entrega por aplicativo cresceu sobre duas rodas: 405 mil condutores de moto trabalhavam por plataformas no 3º trimestre de 2025, quase o dobro de 2022 (IBGE). Os dois fatos ajudam a entender por que a moto de entrega aparece nas queixas de velocidade, sem fazer de cada entregador um culpado.

O que costuma funcionar é desenho, não discussão: entrega concluída na portaria, área de espera perto da entrada, a mesma regra de velocidade para todo veículo e registro objetivo no lugar da abordagem na guarita.

Neste texto
  1. Por que a moto de entrega aparece tanto nas queixas de velocidade?
  2. O que os números de sinistros com motocicleta mostram?
  3. Por que a discussão na portaria costuma piorar o problema?
  4. O que o condomínio pode mudar sem depender de cada entregador?
  5. Como tratar a infração da moto de entrega sem transformar em caso pessoal?

Por que a moto de entrega aparece tanto nas queixas de velocidade?

A explicação mais útil é de contexto, não de caráter. Segundo o IBGE, o número de condutores de motocicleta que trabalham por plataformas digitais passou de 211 mil no 4º trimestre de 2022 para 405 mil no 3º trimestre de 2025, e 325 mil pessoas tinham a entrega como trabalho principal. Os motociclistas plataformizados trabalhavam 3,8 horas por semana a mais que os demais motociclistas. Mais motos fazendo entrega significa mais motos passando pela cancela, todos os dias, em horários concentrados.

Há também o ritmo. A pesquisa EpiSAT Entregadores, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ouviu 563 entregadores: 44,1% relataram ao menos um acidente de trabalho no ano anterior, e 82,8% desses episódios foram de trânsito. Entre os que disseram trabalhar frequentemente acelerados, 48,8% se acidentaram, contra 33,7% entre os que raramente ou nunca trabalham assim. É associação, numa amostra de voluntários, e não prova de causa. Mas aponta na mesma direção que o bom senso: quem trabalha contra o relógio tende a correr mais.

O condomínio soma um fator próprio. A via interna é o trecho final de um percurso que o entregador muitas vezes não conhece, com blocos parecidos, numeração confusa e endereço incompleto no pedido. Procurar e ter pressa ao mesmo tempo é a combinação em que a velocidade sobe e a atenção cai. Nada disso desculpa a infração. Explica onde estão as alavancas.

O que os números de sinistros com motocicleta mostram?

Os números mostram quem se machuca quando a moto passa rápido demais. A tabela reúne os dados que conseguimos conferir, com a fonte de cada um.

Sinistros com motocicleta no Brasil e efeito da velocidade sobre o pedestre. Fontes na seção ao fim do texto, consultadas em 9 de outubro de 2026. O dado de 2024 vem de fonte secundária que cita o ONSV.
Indicador Valor Fonte
Mortes de motociclistas no trânsito, 2024 15.459 de 37.150 (≈ 42%) ONSV, dados do SIM/DATASUS, via Portal do Trânsito
Mortes de motociclistas no trânsito, 2023 13.477 ONSV, via Portal do Trânsito
Internações de motociclistas no SUS por lesão de trânsito, 2021 115.709 (61,0% do total) Ministério da Saúde, Boletim Epidemiológico v. 54, n. 6
Condutores de moto em plataformas digitais, 3º tri 2025 405 mil (211 mil em 2022) IBGE, PNAD Contínua
Risco de morte do pedestre atropelado, 50 km/h contra 30 km/h quase 5 vezes maior International Transport Forum (ITF/OCDE), 2021

Dentro do condomínio, dois grupos concentram o risco. O primeiro é o pedestre: criança na saída do bloco, idoso atravessando para o carro, alguém com um carrinho de compras. O ITF registra que o risco de um pedestre morrer atropelado é quase cinco vezes maior a 50 km/h do que a 30 km/h. O segundo é o próprio motociclista, que não tem carroceria entre ele e o meio-fio. A velocidade baixa protege os dois ao mesmo tempo, e é por isso que ela é uma pauta de segurança, e não de lado. O que acontece juridicamente quando alguém se fere está em atropelamento dentro do condomínio: quem responde.

Por que a discussão na portaria costuma piorar o problema?

Porque acontece na pior hora, entre as pessoas erradas e sem registro. O porteiro e o morador não têm autoridade de trânsito, o entregador está atrasado, e a conversa começa já com acusação. Em julho de 2026, o Portal 6 noticiou uma briga entre entregador e morador num condomínio de Anápolis (GO) que começou depois de uma entrega atrasada por endereço errado. As imagens de segurança não tinham áudio, e a própria reportagem registrou que não era possível saber o conteúdo da discussão. É o retrato do problema: uma câmera que viu tudo e não prova quase nada.

A abordagem pessoal tem três custos. Expõe quem aborda a risco físico e a responder pelo que fizer na discussão. Não produz prova que sirva para a medida do regimento. E transforma uma questão de conduta numa questão entre pessoas, que é justamente o que o condomínio quer evitar. Registrar a conduta, e não discutir a pessoa, é o caminho descrito em como registrar uma infração interna sem virar palavra contra palavra.

O que o condomínio pode mudar sem depender de cada entregador?

A medida mais forte é encurtar o trajeto da moto dentro do condomínio. Cada metro de via interna que ela não precisa percorrer é um metro sem risco de velocidade. E aqui há apoio fora do condomínio. Em março de 2024, um vice-presidente do iFood disse, segundo a Band, que a obrigação do entregador é entregar no primeiro ponto de contato, e que no condomínio esse ponto é a portaria. A mesma reportagem informa que não há lei federal sobre o tema. Há leis locais: na Paraíba, a Lei estadual nº 12.934, publicada em 5 de dezembro de 2023, diz que o consumidor não pode exigir que o entregador entre no condomínio; no Rio de Janeiro, a Lei municipal nº 9.226/2026, publicada em 7 de janeiro de 2026, define a portaria mais próxima, ou local designado pelo condomínio, como ponto de entrega de itens de pequeno porte. As duas preveem exceção para idosos ou pessoas com deficiência.

Dois esquemas de condomínio lado a lado. À esquerda, uma linha tracejada sai da portaria e percorre a via interna entre blocos até a porta de uma unidade. À direita, a entrega termina na portaria, ao lado de uma área de espera, e a moto não entra.
Trajeto curto. Quando a entrega termina na portaria, a moto deixa de circular pela via que pedestres usam, e a questão da velocidade some daquele trecho.

Onde a entrega na portaria não couber em tudo, outras medidas reduzem o atrito sem apontar dedo para ninguém:

Onde entramos nisso

O OpenRadar mede a velocidade de qualquer veículo na via interna com as câmeras que o condomínio já tem, com a mesma régua para morador, visitante e entregador. O registro sai com hora e local, o que permite tratar a conduta sem discussão na portaria.

Ver como funciona no condomínio

Como tratar a infração da moto de entrega sem transformar em caso pessoal?

Com a mesma régua que vale para todos. O limite e a tolerância são os mesmos para morador, visitante, prestador e entregador, e estão escritos no regimento antes de qualquer caso. Quando a regra muda conforme quem está na moto, a discussão deixa de ser sobre velocidade e passa a ser sobre justiça, e aí ninguém sai dela.

O registro deve dizer o que aconteceu, e não quem a pessoa é: data, hora, local, velocidade medida e identificação do veículo. Imagem de entregador circulando em grupo de mensagens não resolve nada e cria outro problema, de proteção de dados, como mostra o texto sobre quem pode ver as imagens das câmeras. O destinatário natural da comunicação é o morador que fez o pedido, quando o regimento prevê que quem autoriza a entrada responde por ela, e a plataforma, pelo canal de suporte que ela oferece.

Por fim, medir antes de concluir. A moto é mais audível que o carro, e a percepção de quem mora pode não coincidir com a medição. Contar as passagens acima do limite por tipo de veículo, trecho e horário mostra se o problema é mesmo a moto de entrega, se é o carro do morador no fim da tarde ou os dois. O método está em mapa de calor de infrações no condomínio. Com o dado do próprio condomínio na mesa, a assembleia discute medidas, e não pessoas.

O que este texto não afirma

Não afirma que entregadores sejam a maioria dos infratores de velocidade em condomínios. Não encontramos dado público sobre isso, e cada condomínio só sabe o que acontece na própria via se medir. Também não comenta nenhum caso específico.

A pesquisa da UFBA usa amostra de voluntários e mostra associação, não causa. Os dados do IBGE descrevem o trabalho por plataforma em geral, não o comportamento dentro de condomínios. O número de mortes de 2024 vem de fonte secundária que cita o ONSV; a série oficial do Ministério da Saúde que abrimos vai até 2021.

As leis citadas são da Paraíba e do município do Rio de Janeiro e valem só nesses lugares, e o resumo da lei paraibana vem da Assembleia Legislativa, não do texto publicado no Diário Oficial. Este texto não é parecer jurídico.

Fontes

  1. IBGE. Trabalho por meio de plataformas digitais 2025 (PNAD Contínua, Nota Técnica), divulgado em 4 de setembro de 2026. agenciadenoticias.ibge.gov.br/…/ffb0b532fc6993f131b6eef6dae73bf5.pdf 405 mil condutores de moto plataformizados (211 mil em 2022), 325 mil entregadores no trabalho principal e 3,8 horas semanais a mais. Consultado em 9 de outubro de 2026.
  2. Portal do Trânsito. Mortes no trânsito avançam pelo quinto ano seguido no Brasil, aponta análise do ONSV, 31 de julho de 2026. portaldotransito.com.br/…/mortes-no-transito-avancam-pelo-quinto-ano-seguido 15.459 mortes de motociclistas em 2024 (13.477 em 2023), de 37.150 no total, cerca de 42% (fonte secundária citando o ONSV e o SIM/DATASUS). Consultado em 9 de outubro de 2026.
  3. Ministério da Saúde. Cenário brasileiro das lesões de motociclistas no trânsito de 2011 a 2021, Boletim Epidemiológico v. 54, n. 6, 27 de abril de 2023. gov.br/saude/…/boletim-epidemiologico-volume-54-no-06 115.709 internações de motociclistas em 2021, 61,0% das internações por lesão de trânsito. Consultado em 9 de outubro de 2026.
  4. International Transport Forum (OCDE). Road Safety in Cities: Street Design and Traffic Management Solutions, ITF Policy Papers nº 99, 2021. itf-oecd.org/…/road-safety-cities-street-design-traffic-management.pdf Risco de morte do pedestre quase cinco vezes maior a 50 km/h do que a 30 km/h (seção Speed management). Consultado em 9 de outubro de 2026.
  5. Jornale (Estadão Conteúdo). Estudo cruza ritmo de entrega com aumento de acidentes, 8 de outubro de 2026. jornale.com.br/post/estudo-cruza-ritmo-de-entrega-com-aumento-de-acidentes Pesquisa EpiSAT Entregadores (UFBA), 563 entregadores, 44,1% com acidente em um ano, 48,8% contra 33,7% conforme o ritmo. Consultado em 9 de outubro de 2026.
  6. Portal 6. Vídeo mostra início de confusão envolvendo entregador e morador em condomínio de Anápolis, 8 de julho de 2026. portal6.com.br/2026/07/08/video-mostra-inicio-de-confusao… Briga após entrega atrasada por endereço errado; imagens sem áudio. Consultado em 9 de outubro de 2026.
  7. Band. Entregador deve entrar nos prédios para entregar a comida? Veja regra do iFood, 5 de março de 2024. band.com.br/noticias/entregador-deve-entrar-nos-predios… Fala do vice-presidente do iFood sobre o primeiro ponto de contato e ausência de lei federal. Consultado em 9 de outubro de 2026.
  8. Assembleia Legislativa da Paraíba. Agora é lei: consumidores não podem exigir que entregadores subam até apartamentos, 5 de dezembro de 2023. al.pb.leg.br/52389/agora-e-lei… Lei estadual nº 12.934/2023 e exceção para mobilidade reduzida e pessoas com deficiência. Consultado em 9 de outubro de 2026.
  9. Alma Preta. Lei sancionada no Rio proíbe cliente de exigir que entregador suba até a porta de apartamentos, 7 de janeiro de 2026. almapreta.com.br/…/lei-sancionada-no-rio-proibe-cliente… Lei municipal nº 9.226/2026 do Rio de Janeiro: portaria mais próxima ou local designado, itens pequenos, exceções. Consultado em 9 de outubro de 2026.
Juliano Baladão Engenharia do OpenRadar — medição de velocidade por vídeo e evidência auditável em via privada.
Sobre o OpenRadar

Velocidade na via interna é um assunto que esquenta rápido. Nosso trabalho é trocar a impressão pelo registro: quanto, onde e quando, igual para todos, para que o condomínio decida com base no que aconteceu.

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