Medir velocidade por vídeo: o que a física exige
Resposta curta
Velocidade medida por vídeo é uma distância conhecida dividida pelo tempo entre dois instantes. Como só existem esses dois ingredientes, o erro só pode vir de três lugares: da distância, do tempo e de qual ponto do veículo foi considerado em cada instante.
O erro de tempo é o mais traiçoeiro porque é invisível. Um veículo que cruza 10 m em 0,8 s está a 45,0 km/h. A 7 quadros por segundo, um único quadro vale 0,143 s: errar por um quadro joga a leitura para 38,2 km/h ou 54,8 km/h, sem que nada na imagem pareça diferente.
Velocidade por vídeo é uma divisão, e é só isso
Não há mágica no método. Marca-se um trecho de percurso de comprimento conhecido — o vão — e registra-se o instante em que o veículo entra e o instante em que sai. A velocidade média nesse trecho é o comprimento do vão dividido pela diferença entre os dois instantes.
Isso tem uma consequência que costuma decepcionar: o resultado é sempre uma média sobre o vão, nunca a velocidade instantânea num ponto. Se o motorista freou no meio do trecho, o número entregue não é o pico. Um sistema honesto diz isso no laudo em vez de deixar a leitura parecer uma fotografia do velocímetro.
A pesquisa forense trata o assunto exatamente assim. O trabalho que apresenta o conjunto de dados ForeSpeed, feito com um veículo trafegando a velocidades conhecidas, registra que a acurácia da estimativa de velocidade a partir de imagens reais depende fortemente de vários fatores: especificações da câmera, método de aquisição, resolução espacial e temporal, compressão e perspectiva da cena.
O erro da distância vem de três lugares diferentes
O primeiro é banal e frequente: a medição em campo. O vão precisa ser medido no chão, com trena, entre referências físicas que qualquer pessoa possa reencontrar depois. Distância estimada por planta baixa, por passada ou por comparação com um carro estacionado entra no cálculo como erro puro, e um erro percentual na distância vira o mesmo erro percentual na velocidade.
O segundo é a projeção. A câmera vê um mundo tridimensional achatado num plano. Dois pontos igualmente espaçados no asfalto não ficam igualmente espaçados na imagem: o que está mais longe aparece mais junto. Converter pixels em metros exige saber a relação entre o plano da imagem e o plano do solo naquele ponto específico — e essa relação muda de um lado ao outro do quadro.
O terceiro é a altura. O veículo não está no plano do chão: a placa, o teto e o espelho estão acima dele. Se a referência usada para marcar entrada e saída não vive no mesmo plano que foi calibrado, aparece um deslocamento sistemático que não some com repetição, porque não é ruído — é viés.
Por que a cadência de quadros quantiza o instante?
Porque um vídeo não observa o tempo de forma contínua. Ele entrega amostras. Entre um quadro e o seguinte não existe informação nenhuma, e o instante em que o veículo cruzou a linha de entrada só pode ser conhecido com a precisão de um intervalo entre quadros. Essa é a quantização: o tempo medido é sempre um múltiplo do período de amostragem, arredondado.
O efeito disso no resultado depende de duas coisas — do tamanho do quadro em segundos e do tamanho do tempo total medido. Um erro fixo de um quadro pesa muito quando o tempo total é curto e pesa pouco quando é longo. Daí as duas alavancas de projeto: aumentar a cadência encurta o quadro; aumentar o vão alonga o tempo total.
| Vão | Cadência | Tempo nominal | Faixa com erro de um quadro |
|---|---|---|---|
| 10 m | 7 q/s | 0,80 s | 38,2 – 54,8 km/h |
| 10 m | 15 q/s | 0,80 s | 41,5 – 49,1 km/h |
| 10 m | 30 q/s | 0,80 s | 43,2 – 47,0 km/h |
| 30 m | 7 q/s | 2,40 s | 42,5 – 47,8 km/h |
| 30 m | 15 q/s | 2,40 s | 43,8 – 46,3 km/h |
| 30 m | 30 q/s | 2,40 s | 44,4 – 45,6 km/h |
A primeira linha e a última descrevem o mesmo carro na mesma via. Uma delas admite uma faixa de quase 17 km/h; a outra, de pouco mais de 1 km/h. Nenhum modelo de inteligência artificial melhora esse número: é o relógio do sistema que está grosso. Cadência baixa em vão curto é a combinação que destrói qualquer medição, e é justamente a combinação mais comum em instalação de CFTV existente, onde o fluxo secundário costuma ser configurado com cadência reduzida para poupar rede.
Qual ponto do veículo foi medido?
Esta é a fonte de erro que mais passa despercebida, e é puramente conceitual: o veículo tem comprimento. Se a entrada no vão for marcada quando a frente cruza a linha e a saída for marcada quando a traseira cruza a outra, o ponto que de fato percorreu o vão não percorreu o vão inteiro.
A conta é brutal. Um carro de 4,5 m num vão de 10 m: trocar a referência entre entrada e saída muda o percurso real de 10 m para 5,5 m ou 14,5 m — um erro de 45% na distância, que vira 45% na velocidade. No mesmo vão de 30 m do exemplo anterior, o mesmo descuido custa 15%. A regra é simples de enunciar e exige disciplina para cumprir: a referência tem de ser o mesmo ponto do mesmo veículo na entrada e na saída.
Ângulo oblíquo piora a medição mesmo com a distância certa
Quanto mais a câmera olha a via de lado, mais metros de asfalto cabem em cada pixel no fundo da cena, e mais o erro de um pixel na marcação vale em metros. É o mesmo fenômeno que descrevemos em densidade de pixel e DORI: ângulo é perda de densidade disfarçada. A diferença é que, aqui, a densidade perdida vira incerteza no número final.
O estudo de caso do ForeSpeed mediu isso num produto comercial de análise forense: o método estimou a velocidade média de forma confiável em várias condições, mas a faixa de incerteza aumentou significativamente quando a cena envolvia distorção de perspectiva forte. O mesmo trabalho guardou os vídeos com vários fatores de compressão, justamente para simular o mundo real, em que a exportação nem sempre segue padrão forense.
Antes de instalar qualquer coisa, medimos o vão disponível, a cadência real que aquela câmera entrega e o ângulo com que ela vê a via. Se a combinação não sustenta um número defensável, o diagnóstico é esse — e é mais barato ouvir isso num relatório do que ouvir de um morador que contestou a medição.
Por que um sistema honesto descarta a medição em vez de publicar um número duvidoso?
Porque publicar um número que não se sustenta é pior do que não publicar nada. Uma medição contestada e derrubada não derruba só aquele registro: ela derruba a credibilidade de todos os outros, inclusive os corretos. Numa assembleia, basta um caso mal fundamentado para transformar o assunto inteiro em discussão sobre o método.
As condições que justificam descartar são conhecidas de antemão, e todas aparecem neste texto: vão efetivamente percorrido menor do que o projetado, cadência real abaixo da esperada naquele instante, oclusão parcial do veículo entre a entrada e a saída, referência que mudou de ponto, e trajetória que não corresponde ao plano calibrado. Nenhuma delas exige julgamento subjetivo — todas são verificáveis no próprio registro.
Um sistema que nunca descarta nada está dizendo, na prática, que não sabe reconhecer quando errou.
Radar de condomínio não é instrumento metrológico homologado
Isso precisa ser dito com todas as letras. No Brasil, medidor de velocidade usado para fiscalização de trânsito é instrumento sujeito à metrologia legal. O Inmetro informa que, conforme o item 2.3.3 do Regulamento Técnico Metrológico aprovado pela Portaria Inmetro nº 158 de 2022, os erros máximos admissíveis em serviço para medidores fixos, estáticos e portáteis são de ± 7 km/h para velocidades até 100 km/h e de ± 7% acima disso.
Um sistema de vídeo em via interna de condomínio não passa por essa aprovação de modelo nem pela verificação periódica correspondente, e por isso não produz medida com valor metrológico legal. O condomínio também não é órgão de trânsito e não aplica penalidade do Código de Trânsito Brasileiro — o instrumento dele é a convenção e o regimento interno, assunto que tratamos em condomínio pode multar morador por excesso de velocidade?.
Então para que serve medir? Para três coisas concretas. Dissuasão: velocidade medida e informada muda comportamento de quem sabe que está sendo medido. Prova documental: um registro íntegro, com instante, local e método declarados, sustenta o rito previsto no regimento — é o tema de evidência de vídeo que se sustenta. E estatística da via: distribuição de velocidade por horário e por trecho é o que permite discutir onde intervir, em vez de discutir quem é o culpado.
Não afirma qual é a incerteza de nenhum sistema real, inclusive o nosso. Os números da tabela são aritmética de exemplo com um erro de exatamente um quadro; erro real combina distância, tempo e referência, e precisa ser levantado em campo.
Não afirma qual cadência, qual vão ou qual tolerância um projeto deve adotar. Isso depende da via, da câmera e do que o registro precisa sustentar, e nenhum valor de calibração do OpenRadar aparece aqui.
Não afirma que os erros máximos admissíveis da Portaria Inmetro nº 158 de 2022 se apliquem a sistema de vídeo em via privada. Eles valem para medidores submetidos à metrologia legal — que é exatamente o ponto: são regimes diferentes.
Não afirma que medição interna substitua fiscalização de trânsito. Não substitui, e não gera multa prevista no Código de Trânsito Brasileiro.
Fontes
- Inmetro. Qual a margem de erro de medidor de velocidade (radar)? Perguntas frequentes de metrologia legal, publicado em 13 de abril de 2018 e atualizado em 5 de dezembro de 2023. gov.br/inmetro/pt-br/acesso-a-informacao/perguntas-frequentes/metrologia-legal/medidor-de-velocidade-radar/qual-a-margem-de-erro-de-radar Origem da referência ao item 2.3.3 do Regulamento Técnico Metrológico da Portaria Inmetro nº 158 de 2022 e dos erros máximos admissíveis de ± 7 km/h até 100 km/h e ± 7% acima disso. Consultado em 4 de setembro de 2026.
- ForeSpeed: A real-world video dataset of CCTV cameras with different settings for vehicle speed estimation, pré-publicação arXiv:2512.19364, dezembro de 2025. arxiv.org/abs/2512.19364 Origem da lista de fatores dos quais a acurácia da estimativa forense de velocidade depende (câmera, aquisição, resolução espacial e temporal, compressão, perspectiva) e do resultado de que a faixa de incerteza aumenta significativamente com distorção de perspectiva forte. Consultado em 4 de setembro de 2026.
- Brasil. Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997 — Código de Trânsito Brasileiro, texto compilado. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9503compilado.htm Base da afirmação de que fiscalização e penalidade de trânsito cabem aos órgãos do Sistema Nacional de Trânsito, e não ao condomínio. Consultado em 4 de setembro de 2026.
Medimos velocidade em via privada usando as câmeras que já estão instaladas, e gravamos cada registro com assinatura SHA-256 que qualquer pessoa pode conferir sozinha. Não é radar homologado, e dizemos isso antes de qualquer conversa — o que entregamos é medição rastreável e registro que resiste a contestação.