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Medir velocidade por vídeo: o que a física exige

Faixa de via vista de cima com duas linhas de referência, o mesmo veículo desenhado na entrada e na saída do vão, e uma régua de quadros abaixo com um intervalo destacado.

Resposta curta

Velocidade medida por vídeo é uma distância conhecida dividida pelo tempo entre dois instantes. Como só existem esses dois ingredientes, o erro só pode vir de três lugares: da distância, do tempo e de qual ponto do veículo foi considerado em cada instante.

O erro de tempo é o mais traiçoeiro porque é invisível: ele não aparece na imagem. Dois registros do mesmo veículo podem parecer idênticos e mesmo assim terem sido marcados em quadros diferentes — e um único quadro de diferença já move a leitura de forma material, sem que nada na cena denuncie o desvio.

Neste texto
  1. É uma divisão, e é só isso
  2. O erro da distância
  3. Quantização de quadro
  4. Qual ponto foi medido
  5. Ângulo oblíquo
  6. Quando descartar a medição
  7. Não é instrumento homologado

Velocidade por vídeo é uma divisão, e é só isso

Marca-se um trecho de comprimento conhecido — o vão — e registra-se o instante em que o veículo entra e o instante em que sai. A velocidade média no trecho é o comprimento do vão dividido pela diferença entre os dois instantes.

Faixa de via vista de cima com linha de entrada e linha de saída separadas pela distância d, o mesmo veículo nos instantes t1 e t2, e a fórmula v igual a d dividido por delta t.
Os dois únicos ingredientes. Uma distância d medida no chão entre duas referências físicas e dois instantes registrados, t₁ e t₂. A figura também mostra por que a referência tem de ser o mesmo ponto do veículo nos dois instantes: marcar a frente na entrada e a traseira na saída muda o percurso real.

Daí uma consequência que costuma decepcionar: o resultado é sempre uma média sobre o vão, nunca a velocidade instantânea num ponto. Se o motorista freou no meio do trecho, o número entregue não é o pico — e o laudo tem de dizer isso.

O trabalho que apresenta o conjunto de dados ForeSpeed, feito com um veículo a velocidades conhecidas, registra que a acurácia da estimativa depende fortemente de especificações da câmera, método de aquisição, resolução espacial e temporal, compressão e perspectiva da cena.

O erro da distância vem de três lugares diferentes

  1. A medição em campo. O vão precisa ser medido no chão, com trena, entre referências físicas que qualquer pessoa reencontre depois. Distância estimada por planta baixa ou por passada entra como erro puro — e erro percentual na distância vira erro percentual igual na velocidade.
  2. A projeção. Dois pontos igualmente espaçados no asfalto não ficam igualmente espaçados na imagem: o que está mais longe aparece mais junto. Converter pixels em metros exige a relação entre o plano da imagem e o plano do solo naquele ponto — e ela muda de um lado ao outro do quadro.
  3. A altura. Placa, teto e espelho não estão no plano do chão. Se a referência de entrada e saída não vive no plano calibrado, aparece um deslocamento sistemático que não some com repetição, porque não é ruído — é viés.

Por que a cadência de quadros quantiza o instante?

Porque um vídeo não observa o tempo: ele amostra. Entre um quadro e o seguinte não existe informação nenhuma, e o instante em que o veículo cruzou a linha só pode ser conhecido com a precisão de um intervalo entre quadros. O tempo medido é sempre um múltiplo do período de amostragem, arredondado.

Régua de quadros numerados de q1 a q9 com o instante real do cruzamento caindo entre o quarto e o quinto quadro, e a faixa de incerteza destacada sobre esse intervalo.
O instante real cai entre dois quadros. O cruzamento acontece num ponto do tempo que nenhum quadro registrou: o vídeo só sabe que ele ficou entre a amostra anterior e a seguinte. A incerteza sobre o instante vale, portanto, um intervalo inteiro de amostragem — e o tempo medido é sempre um múltiplo do período de amostragem, arredondado.

O peso desse erro não é o mesmo em toda medição: ele depende do tempo total medido e da duração de cada quadro. Um erro fixo de um quadro pesa muito quando o tempo total é curto e pouco quando é longo. Por isso a combinação que sustenta um número defensável numa via não sustenta necessariamente em outra — é conta de cada cena, não valor de catálogo, e quem promete a mesma precisão em qualquer instalação está prometendo o que a física não entrega.

Nenhum modelo de inteligência artificial melhora esse número: quem está grosso é o relógio do sistema, e nenhum treinamento devolve informação que nunca foi amostrada. Vale a advertência para quem pretende reaproveitar CFTV existente — o fluxo que chega à análise nem sempre é o que o sensor produziu, e isso precisa ser verificado antes de qualquer promessa de medição.

Qual ponto do veículo foi medido?

Esta é a fonte de erro que mais passa despercebida, e é puramente conceitual: o veículo tem comprimento. Marcar a entrada quando a frente cruza a linha e a saída quando a traseira cruza a outra faz o ponto medido percorrer algo diferente do vão.

O princípio é simples e a consequência é grande: se a referência muda de ponto, o percurso realmente percorrido deixa de ser o vão, e a divisão passa a usar uma distância que não é a que foi medida no chão. A regra que sobra exige disciplina, não esperteza: mesmo ponto do mesmo veículo na entrada e na saída, sempre.

Ângulo oblíquo piora a medição mesmo com a distância certa

Quanto mais a câmera olha a via de lado, mais metros de asfalto cabem em cada pixel no fundo da cena, e mais um erro de um pixel na marcação vale em metros. O mecanismo está em densidade de pixel e DORI; aqui interessa a consequência: a densidade perdida vira incerteza no número final, não só borrão na imagem.

O estudo de caso do ForeSpeed mediu isso num produto comercial de análise forense: a velocidade média saiu confiável em várias condições, mas a faixa de incerteza aumentou significativamente com distorção de perspectiva forte.

Onde entramos nisso

Antes de instalar qualquer coisa, medimos o vão disponível, a cadência real que aquela câmera entrega e o ângulo com que ela vê a via. Se a combinação não sustenta um número defensável, o diagnóstico é esse — e é mais barato ouvir isso num relatório do que ouvir de um morador que contestou a medição.

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Por que um sistema honesto descarta a medição em vez de publicar um número duvidoso?

Porque uma medição derrubada não derruba só aquele registro: derruba a credibilidade de todos os outros, inclusive os corretos. Numa assembleia, basta um caso mal fundamentado para transformar o assunto em discussão sobre o método.

As condições que justificam o descarte não exigem julgamento subjetivo: são verificáveis no próprio registro, a partir das mesmas três fontes de erro deste texto — a distância, o tempo e a referência. Um sistema sério reconhece essas situações e recusa a medição em vez de publicar um número que não sustenta. Qual é exatamente o conjunto dessas condições, e quanto pesa cada uma, é o que anos de campo ensinam; não é um checklist genérico que se copia de um artigo, e é justamente aí que mora a diferença entre um sistema confiável e um que nunca descarta nada.

Radar de condomínio não é instrumento metrológico homologado

No Brasil, medidor de velocidade usado para fiscalização de trânsito é instrumento sujeito à metrologia legal. O Inmetro informa que, pelo item 2.3.3 do Regulamento Técnico Metrológico da Portaria Inmetro nº 158 de 2022, os erros máximos admissíveis em serviço para medidores fixos, estáticos e portáteis são de ± 7 km/h até 100 km/h e de ± 7% acima disso.

Um sistema de vídeo em via interna não passa por essa aprovação de modelo nem pela verificação periódica, e por isso não produz medida com valor metrológico legal. O condomínio também não é órgão de trânsito e não aplica penalidade do Código de Trânsito Brasileiro — o instrumento dele é a convenção e o regimento interno, assunto de condomínio pode multar morador por excesso de velocidade?.

Então para que serve medir? Para três coisas concretas.

  1. Dissuasão. Velocidade medida e informada muda o comportamento de quem sabe que está sendo medido.
  2. Prova documental. Registro íntegro, com instante, local e método declarados, sustenta o rito do regimento — tema de evidência de vídeo que se sustenta.
  3. Estatística da via. Distribuição de velocidade por horário e por trecho permite discutir onde intervir, em vez de discutir quem é o culpado.
O que este texto não afirma

Não afirma qual é a incerteza de nenhum sistema real, inclusive o nosso. O erro real combina distância, tempo e referência, e precisa ser levantado em campo, cena a cena. Este texto descreve de onde o erro vem, não quanto ele vale.

Não afirma qual cadência, qual vão ou qual tolerância um projeto deve adotar, nem publica faixa de erro por configuração. Isso depende da via, da câmera e do que o registro precisa sustentar, e nenhum valor de calibração do OpenRadar aparece aqui.

Não afirma que os erros máximos admissíveis da Portaria Inmetro nº 158 de 2022 se apliquem a sistema de vídeo em via privada. Eles valem para medidores submetidos à metrologia legal — que é exatamente o ponto: são regimes diferentes.

Não afirma que medição interna substitua fiscalização de trânsito. Não substitui, e não gera multa prevista no Código de Trânsito Brasileiro.

Fontes

  1. Inmetro. Qual a margem de erro de medidor de velocidade (radar)? Perguntas frequentes de metrologia legal, publicado em 13 de abril de 2018 e atualizado em 5 de dezembro de 2023. gov.br/inmetro/pt-br/acesso-a-informacao/perguntas-frequentes/metrologia-legal/medidor-de-velocidade-radar/qual-a-margem-de-erro-de-radar Origem da referência ao item 2.3.3 do Regulamento Técnico Metrológico da Portaria Inmetro nº 158 de 2022 e dos erros máximos admissíveis de ± 7 km/h até 100 km/h e ± 7% acima disso. Consultado em 4 de setembro de 2026.
  2. ForeSpeed: A real-world video dataset of CCTV cameras with different settings for vehicle speed estimation, pré-publicação arXiv:2512.19364, dezembro de 2025. arxiv.org/abs/2512.19364 Origem da lista de fatores dos quais a acurácia da estimativa forense de velocidade depende (câmera, aquisição, resolução espacial e temporal, compressão, perspectiva) e do resultado de que a faixa de incerteza aumenta significativamente com distorção de perspectiva forte. Consultado em 4 de setembro de 2026.
  3. Brasil. Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997 — Código de Trânsito Brasileiro, texto compilado. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9503compilado.htm Base da afirmação de que fiscalização e penalidade de trânsito cabem aos órgãos do Sistema Nacional de Trânsito, e não ao condomínio. Consultado em 4 de setembro de 2026.
Juliano Baladão Engenharia do OpenRadar — medição de velocidade por vídeo e evidência auditável em via privada.
Sobre o OpenRadar

Medimos velocidade em via privada usando as câmeras que já estão instaladas, e gravamos cada registro com assinatura SHA-256 que qualquer pessoa pode conferir sozinha. Não é radar homologado, e dizemos isso antes de qualquer conversa — o que entregamos é medição rastreável e registro que resiste a contestação.

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